terça-feira, 22 de dezembro de 2009

EDUCAÇÃO É UM DOM

É impressionante. Como eu sempre falo, quem anda bastante pela cidade, a pé ou de ônibus, vê cada coisa mais maluca.

Indo para o trabalho subi na condução, que não estava nos seus dias mais pontuais. Do ponto eu percebi que viajaria de pé, pois cerca de dez pessoas assim estavam. Cartãozinho na mão e to dentro. Logo vi que eram daqueles carros que tem, à direita de quem entra, uma poltrona de frente para a outra. Sempre me dá a impressão que se não estivessem assim, daria lugar a mais uma dupla de assentos. Assim, seriam oito de pé quando cheguei.

Sentado na janela e virado para a porta, havia um senhor com uma maleta e uma calha daquelas de esconder fios que, de relance pensei que fosse uma bengala para cego.

O sujeito levantou e, quanto mais coisa se tem em mãos, pior fica se locomover pelo corredor do veículo. Chamou-me a atenção que ele parou no meio do caminho que levava na direção da porta, ou seja, parou no meio do corredor. E aí, começou o show!

Buscando a porta de saída, um rapaz com cerca de 18 anos e fones de ouvido, pede licença pro cara. Este responde e o garoto não escuta. O coroa repete e ele saca o fone de uma das orebas, escuta e pára. Não consegui entender o que diziam.

Em seguida, uma senhora tenta fazer o mesmo. O velho pergunta bem alto, sem olhar ela. “Vai descer antes do Rosário?”. A senhora com desconfiança, mas sem perceber a estranheza da pergunta, lhe responde que não. “Então a senhora que espere”, responde o louco. E ela esperou.

Percebeu-se que o cara não deixaria as pessoas passarem por ele até que ele descesse.

Outro senhor, que estava assistindo a cena, como todos nós, forçou uma passagem, e escuta: “O senhor vai descer antes do Rosário?”. “Vou!”, responde o cara. Como não havia outra parada, senão a do Rosário, o piradão repete a pergunta. “Vai descer antes do Rosário?”.

O cara tenta passar na marra. O louco intervém. As pessoas começam a falar todas ao mesmo tempo. “Que desaforo!”, “Que falta de educação!”, “Ele só pode ser louco!”, diziam. E ninguém passou.

Quando chegou a parada, o homem, do meio do corredor, pede para que o motorista “segure”, pois ele agora desceria. Lentamente, e sob uma vai digna de torcida de futebol, caminha pelo bus e desce. De fora do ônibus acena como se tivesse sido injustiçado e que o que fizera fora para ensinar um pouco de educação para aquele povo.

VALEU DOS MEU!

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

NOVO AMIGO

Sem nada para fazer. Já se passaram semanas e nada encontrei para me distrair. Foi pensando e mascando o tédio que forrava os dias que tive uma idéia.

Estava na casa de uma tia. Fui obrigado a passar ali alguns meses ou anos, quanto tempo precisasse para me restabelecer da briga que tive com meus pais. Como havia saído de casa de qualquer jeito, estava sem meu violão, meu inseparável companheiro. Lembrei que quando jovem, nesta casa tinha um piano velho e todo desafinado.

Lembrei, também, que na calça que eu vestia, ainda estava guardado um pedacinho de LSD que tinha ganhado de presente em uma festa. Não recordava muito bem de quem, nem em que festa tinha conseguido a figurinha.
Calculei que o tomaria e tocaria um piano.
Faria uma música psicodélica, algo bem malucão mesmo. Bike língua abaixo e esperar. Veio vindo, vindo e veio. Ainda em condições de descer as escadas, fui.

O piano tava cheio de poeira. Olhando bem, levei mais de meia hora para lembrar que queria abrir o instrumento. Puxei a cadeira e estalei meus dedos, igual a um profissional.
Nos primeiros acordes minha emoção foi aos céus. Estava quase perfeito. Mas não soava a psicodelia que eu queria. E não era mesmo. Com o efeito do ácido que tomei, o piano, que não produzia som qualquer há décadas, soava afinadíssimo. A droga havia feito com que eu sintonizasse com aquela porra, seja qualquer que fosse a afinação.

Não bem o que eu queria. Mas as quatro da madrugada, quando terminei a obra, senti não estar tão satisfeito. Mas fiquei feliz por ter encontrado um novo amigo. E feliz por termos nos entendido tão bem!